terça-feira, 11 de maio de 2010

“Histórias das minhas canções”, do compositor Paulo César Pinheiro

O COMPOSITOR DE MAIS DE 2000 MÚSICAS E 150 PARCERIAS DESCREVE PERSONAGENS, FATOS E CENÁRIOS DE SUAS CANÇÕES MAIS SIGNIFICATIVAS

Chega às livrarias em maio, editado pela LeYa, “Histórias das minhas canções”, do compositor Paulo César Pinheiro. O autor selecionou 65 canções, em meio à sua vastíssima produção, para revelar histórias guardadas além das letras e das melodias. Juntas, elas compõem a linha mestra da obra de Paulo César e ilustram também importantes páginas da história da música popular brasileira.

Paulo César Pinheiro, compositor prolífico, de mais de 1000 músicas gravadas num universo de 2000 compostas, possui uma trajetória peculiar. Sua gama de parceiros vai de Pixinguinha a Lenine, passando por João Nogueira, Baden Powell, Joyce, Tom Jobim, D. Ivone Lara - para citar poucos. Ao longo de mais de 40 anos de carreira – iniciada profissionalmente com a gravação de “Lapinha” por Elis Regina, em 1968 – conviveu com outros grandes nomes da MPB, intérpretes, arranjadores, músicos, poetas. Participou dos populares festivais de música da década de 60; acompanhou o surgimento da bossa nova, a evolução das escolas de samba, a censura sistemática à música e o esforço, também constante e intenso, para superá-la.

Faz parte dessa época, por exemplo, a canção “Pesadelo”, feita com a intenção de ser um protesto explícito, já que Paulo César estava cansado das metáforas compulsórias. O grupo MPB-4 adorou a canção, mas tinha certeza de que não passaria pela censura. Se passasse, gravariam, foi a aposta que fizeram- e que Pinheiro ganhou, usando uma ardilosa artimanha, narrada em detalhes no livro.

Numa linguagem informal, como se batesse um papo com o leitor numa mesa de bar, Pinheiro vai desfiando deliciosas histórias que envolvem algumas de suas músicas mais conhecidas. “Tô voltando”, por exemplo, sucesso na voz de Simone, nasceu de um telefonema do parceiro, o músico Maurício Tapajós, que após meses de turnê pelo país dizia-se cansado; só lhe consolava pensar que estava voltando. A frase permaneceu martelando na cabeça de Pinheiro e, com a volta de Tapajós, virou canção. Que tempos depois, se tornaria um hino da anistia e do retorno dos exilados políticos ao Brasil – para orgulho do autor, mesmo não tendo sido esta a inspiração inicial. Aliás, são várias as situações narradas em que as músicas tomam rumos inesperados: numa viagem à Cuba, por exemplo, o autor ouviu e acompanhou anonimamente, numa espécie de luau, uma versão em espanhol de “Vou deitar e rolar” (também conhecida por “Quaquaraquaquá”, imortalizada na voz de Elis Regina).

Generoso, o poeta compartilha intimidades da criação e as idiossincrasias do compositor – que não gosta de fazer parceria com quem não conhece, por exemplo. Descreve as muitas formas pelas quais os caprichosos deuses da música se expressam - e essa variedade de manifestações, contadas em minúcias, consiste em mais uma qualidade do livro. Nele, o leitor acompanhará detalhes sobre a canção que demorou 20 anos para ser concluída; a que surgiu na mente quase inteira (como se fora uma mensagem recebida misteriosamente), canções que foram fruto de desafios; outras feitas durante longos períodos - em um trabalho semelhante à carpintaria das letras, da descoberta da melodia por trás das palavras e vice versa.

A motivação para compor vem das mais diversas situações: desde atender ao desejo da estrela da MPB que quer mostrar sua virtuose a uma iniciante (“Cai dentro”), até celebrar a recuperação do amigo, depois de meses de sofrimento por causa de uma separação (“Refém da solidão”). “Portela na avenida” foi a resposta ao pedido da portelense Clara Nunes, sua mulher na época, que queria exaltar a escola. Pinheiro impôs-se o desafio de fazer algo no mínimo à altura de “Foi um rio que passou em minha vida”, de Paulinho da Viola. Tentou durante algum tempo, mas foi preciso desistir para poder perceber finalmente a imagem que dispararia sua inspiração. Também para Clara, após sua morte e instigado pelo amigo e parceiro João Nogueira, Paulo César compôs “Um ser de luz” - que nunca conseguiu cantar.

Outra característica interessante na carreira de Paulo César Pinheiro é o fato de ter transitado entre diferentes gêneros, movimentos e grupos, sem nunca ter se fixado exclusivamente em um deles. Assim, mesmo identificado com o samba em grande medida, surge vigoroso afirmando: “Eu sou mameluco/sou de Casa Forte/sou de Pernambuco/eu sou o Leão do Norte”, os versos que fez para o amigo e parceiro Lenine.

“Histórias das minhas canções” começa com “Viagem”, parceria com João de Aquino feita aos 14 anos - entre um jogo de bola de gude e o olhar de censura do pai. A narrativa, no entanto, não segue uma ordem cronológica, mas afetiva. Assim, o leitor navega em diferentes épocas da música e da cultura brasileira; passeiam pelas páginas do livro figuras ilustres e variadas como Carlos Drummond de Andrade, Dorival Caymmi, Tom Jobim, Aldir Blanc, Mauro Duarte, Sivuca. Uma viagem completa e emocionante pelos últimos 40 anos de história da MPB.


Ficha Técnica
Título: Histórias das minhas canções / 65 canções
Autor: Paulo César Pinheiro
Formato: 16X23 com
Brochura
Nº de páginas: 256
Preço: 44,90


Sobre o autor
Paulo César Pinheiro é poeta, cantor e compositor, autor de dez livros de poesia, três romances – o último deles, “Pontal do Pilar”, editado pela LeYa. Gravou dez discos, compôs dois musicais. Ganhou um prêmio Grammy pela canção “Saudade de amar”, em parceria com Dori Caymmi, em 2002; recebeu no ano seguinte o prêmio Shell pelo conjunto da obra.

Sobre a LeYa
A LeYa nasceu em Portugal, em janeiro de 2008, como empresa holding na qual se integram algumas das mais prestigiadas editoras nacionais e duas das mais bem-sucedidas editoras africanas. Compõem a LeYa as seguintes editoras: ASA, Caderno, Caminho, Casa das Letras, Dom Quixote, Estrela Polar, Gailivro, Livros d'Hoje, Lua de Papel, Ndjira (Moçambique), Nova Gaia, Nzila (Angola), Oceanos, Oficina do Livro, Quinta Essência, Sebenta, Teorema e Texto. A força destas marcas e a qualidade do que produzem, aliadas aos objetivos ambiciosos e à dinâmica de grupo, fazem da LeYa uma empresa forte e coesa nos seus objetivos gerais e diversa nos seus programas editoriais.